junho 02, 2014

Namora uma rapariga que lê

« Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler e que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. 
Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas. Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. 
Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. 
Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.
Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. 
Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda… namora uma rapariga que escreve. »

Rosemary Urquico

março 08, 2014

Desassossegos




« (..)Tenho a certeza de estar a ficar novamente louca. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não me consigo concentrar. Portanto, estou a fazer o que me parece ser o melhor a fazer. Deste-me muitas possibilidades de ser feliz. Estiveste presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso lutar mais. Sei que estarei a tirar um peso das tuas costas, pois, sem mim, poderás voltar a trabalhar. E tu vais, eu sei. Tu vês, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a ti que devo toda minha felicidade. Foste bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém me pudesse salvar, esse alguém serias tu. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da tua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar tua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V. » - Virginia Woolf